sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ficha de leitura

Período de leitura: 7 de Janeiro até 16 de Março de 2012

Nome do escritor(a): Quito Arantes

Título da obra: “A Janela Aberta”

Editor: Lígia Ramos

Local e data de edição: Tecto de Nuvens, Edições e Artes Gráficas, LDA

Informações sobre o escritor/a: Francisco Manuel Matos Arantes, tem como pseudónimo Quito Arantes, este senhor nasceu em Luanda, Angola, a 09/07/1960. Residiu sempre na cidade de Barcelos, desde criança até aos tempos de hoje. O escritor barcelense frequentou o ensino secundário na área de humanísticas. Divide o seu tempo em duas áreas, a fotografia e a escrita, sendo ele Registado na Sociedade Portuguesa de Autores. Desde cedo começou a interessar-se pelos livros e pela escrita. Segundo informações retiradas da sua página do facebook ele é: músico, compositor, poeta, escritor e também fotógrafo freelance.


Bibliografia do escritor/a:
    Este escritor não apresenta uma bibliografia muito extensa, apenas em 2010 começou por publicar o livro “O Chalé de Cork” e “A Janela Aberta”. Em 2011 publicou o livro “Verão quente de 1984”. Desde 2009 que comanda um blog sobre si, suas publicações, sobre viagens e com fotos da sua autoria também.

Resumo da obra:
    Esta obra aborda, muito semelhante ao primeiro livro publicado “O Chalé de Cork”, as temáticas da importância dos valores e de uma vida cheia de objectivos.
    Esta pequena história tem como personagem principal Luciana, uma mulher que não tem nada a seu favor: vive numa aldeia longínqua onde nada se passa, é órfã desde muito cedo de ai e mãe, é educada pela sua avó viúva, sendo uma família cheia de emigrantes, ela é a única resistente. Luciana frequentava a escola primária e tinha um grande amigo, quase que pode-se chamar de pai, era o doutor da aldeia, costumava ir dar consultas aos seus idosos residentes naquela aldeia. Com o passar do tempo, a menina cresceu, e na altura da sua adolescência ficou sem a única figura paterna. Antes da idade adulta ela perde uma pessoa muito importante na sua vida, a avo que a tinha criado. Ela era uma rapariga humilde, muito forte e tinha uma enorme vontade de vencer, tinha sonhos, como todos nós temos, e com essa sua vontade, perante todas as dificuldades, ela conseguiu superá-las. Quando perde a sua avó, Luciana vê-se obrigada a ir para um orfanato, onde tudo para ela é desconhecido. Infelizmente, a protagonista envolve-se em amizades femininas que não eram as mais aconselháveis, vendo-se, por isso, mais tarde, envolvida numa rede de tráfico humano.
    Este livro é considerado um romance, evidencia valores fundamentais para a vida como a amizade e as relações familiares, tendo como objectivo mostrar que, na vida, mesmo quando uma porta se fecha, há sempre uma janela aberta.

Excerto:
    “A avó Ermelinda sentia-se feliz pelo afecto que a sua neta tinha pelo Dr. Inácio. Era aquele pai que infelizmente, por circunstâncias da vida, não teve.
    O dia de atendimento médico era às segundas e sextas-feiras, e Luciana esperava ansiosa pela sexta-feira, em que por acaso não tinha aulas de tarde, para se encontrar com o Dr.Inácio.”
    Eu escolhi este excerto da obra, porque nestes dois parágrafos, podemos na analisar o amor que a avó tinha por Luciana e que se lamentava da vida por ela não ter tido um pai. Consegue-se perceber também a importância que Luciana dava ao doutor, esperando ansiosamente as sextas-feiras.

Comentário à obra:
    Gostei muito desta obra. É um escritor que conheço, tive curiosidade em lê-lo. É um livro triste, com tudo o que acontece à Luciana. É uma infância dura, sem dúvida alguma, mas aprecio muito a coragem que Luciana teve para ultrapassar todos estes obstáculos que a vida lhe propôs.
Nome aluno/a: Luís Augusto Barreiro Lima nº21 
Data: Sexta-feira, 16 de Março de 2011

Ficha de leitura



Período de leitura: 17 de Outubro até 25 de Novembro de 2011

Nome do escritor(a): Fernando Namora

Título da obra: “A Resposta a Matilde”

Editor: Francisco Lyon de Castro

Local e data de edição: 2726 MEM MARTINS CODEX, PORTUGAL

Informações sobre o escritor/a: Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, a 15/04/1919 e falecido a 31 de Janeiro de 1989 com 70 anos. Os pais eram descendentes de camponeses do concelho de Ansião, no distrito de Leiria. Depois de concluída a instrução primária, iniciou os estudos secundários no Colégio Camões, em Coimbra, tendo em seguida transitado para o Liceu Camões, em Lisboa, onde foi colega de Jorge de Sena. Fernando Namora era licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra. De novo em Coimbra, no Liceu José Falcão, dirige o jornal académico Alvorada e escreve a sua primeira obra, uma colectânea de novelas,  “Almas sem Rumo” (1935), nunca publicada. Em 1937 chega a anunciar a publicação da novela “Pecado Venial”, o que também nunca veio a acontecer. Em 1938, um romance com o nome de “As Sete Partidas do Mundo” foi galardoado com o prémio Almeida Garret. Também recebeu o prémio José Lins do Rego, pelo seu romance “Domingo à tarde” e o prémio Ricardo Malheiros.
Bibliografia do escritor/a:
Ø  “Relevos” – poesia (1937)
Ø  As Sete Partidas do Mundo” – romance (1938)
Ø  “Mar de Sargaços” – poesia (1939)
Ø  “Terra” – poesia (1941)
Ø  “Fogo na Noite Escura” – romance (1943)
Ø  “Casa da Malta” – novela (1945)
Ø  “Minas de San Francisco” – romance (1946)
Ø  “Um Medicamento Nacional: o anti-infeccioso I.B.P.” (1946)
Ø  “Retalhos da Vida de um Médico”, 1ª série – narrativas (1949)
Ø  “A Noite e a Madrugada” – romance (1950)
Ø  “Deuses e Demónios da Medicina” – biografias romanceadas (1952)
Ø  “O Trigo e o Joio” – romance (1954)
Ø  “O Homem Disfarçado” – romance (1957)
Ø  “As Frias Madrugadas” – poesia (1959)
Ø  “Cidade Solitária” – narrativa (1959)
Ø  “Domingo à Tarde” – romance (1961)
Ø  “Esboço Histórico do Neo-realismo” (1961)
Ø  “A Piedosa Oferenda” (1962)
Ø  “Retalhos da Vida de um Médico”, 2ª série – narrativas (1963)
Ø  “Aquilino Ribeiro” – prefácio (1963)
Ø  “Diálogo em Setembro” – crónica romanceada (1966)
Ø  “Um Sino na Montanha” – cadernos de um escritor (1968)
Ø  “Marketing” – poesia (1969)
Ø  “Os Adoradores do Sol” – cadernos de um escritor (1971)
Ø  “Os Clandestinos” – romance (1972)
Ø  “Estamos no Vento” – narrativa literário-sociológica (1974)
Ø  “A Nave de Pedra” – cadernos de um escritor (1975)
Ø  “Literatura, Comunicação, Sociedade” (1975)
Ø  “Cavalgada Cinzenta” – narrativa (1977)
Ø  “Francisco Gentil: 1878-1964” – texto introdutório (1978)
Ø  “Professor Elísio de Moura” (1978)
Ø  “Encontros” – entrevistas (1979)
Ø  Itinerário de Tolstoi: por ele próprio” (1979)
Ø  Prefácio a "A Porta dos Limites" de Urbano Tavares Rodrigues (1979)
Ø  “Resposta a Matilde” – divertimento (1980)
Ø  Prefácio a "Máscaras de Silêncio" de Maria Vitorino (1980)
Ø  “O Rio Triste” – romance (1982)
Ø  “Augusto de Castro ou o Jardim da Vida e da Escrita” (1983)
Ø  “Nome para uma Casa” – poesia (1984)
Ø  “O Espinho” – em "Afecto às Letras" (1984)
Ø  “Sentados na Relva” – cadernos de um escritor (1986)
Ø  “URSS, Mal Amada, Bem Amada” – crónica (1986)
Ø  “Autobiografia” (1987)
Ø  “Jornal sem Data” – cadernos de um escritor (1988)
Ø  “Tinha Chovido na Véspera”


Resumo da obra:

Era um desconhecido:
      Arnaldo Dias Costa era um típico explicador de Matemática (segundo o narrador, que o compara ao explicador que teve na sua juventude), com o hábito de passar o intervalo de quarenta e cinco minutos entre as explicações no Café Estrela. Depois de o frequentar durante duas semanas, Arnaldo já conhecia os frequentadores assíduos: dona Doroteia, amante de chá servido num bule; dona Micas, parceira de Doroteia no dizia respeito a falar sobre a vida alheia; senhor Teodoro, que passou por sete ofícios e intervêm sempre como moderador nas conversas mais exaltadas; senhor Aristides, traz sempre o seu cão quando vem ao café do senhor Marcolino (Café Estrela) tomar um aperitivo depois de uma ida às compras. Mas quem vem alterar por completo a vida recatada e repetitiva do explicador é uma senhora casada chamada Zeferina (embora prefira ser chamada por Manuela ou Manucha - diminutivo lhe atribuído pelo marido Daniel).
       Numa tarde como as outras, Arnaldo vai ao café fazer a sua pausa ao café e depara-se com um casal, por ele desconhecido, sentado numa mesa. Reparou de imediato que a idade do casal rondava os quarenta anos e que ele estava a ler o jornal, ao mesmo tempo que ela, uma mulher muito atraente, fumava calmamente o seu cigarro. Sempre que Arnaldo, frequentador assíduo, ia ao café via o estranho casal.
      Quando numa outra tarde o café estava lotado à excepção da mesa adjacente da do casal, Arnaldo sentou-se e num gesto de amabilidade apanhou o saco que a senhora tinha deixado cair do chão. Ao fazê-lo, ela tentou ajudá-lo e ao mesmo tempo espalhou a pasta de documentos que ele tinha trazido no chão criando uma grande barafunda. A partir desse dia criou-se um sentimento de familiaridade retraído entre eles.
      Após ter saído do café numa outra tarde, Manuela (o nome da senhora, que Arnaldo descobriu depois de ouvir uma conversa do casal) aborda Arnaldo pedindo-lhe que telefone para sua casa, de forma a puderem marcar um encontro.
      No dia seguinte, Arnaldo, receoso que o marido de Manuela atendesse, liga e alegra-se que tenha sido ela a atender a sua chamada e marcam um encontro para essa tarde no Rossio. Lá conversam e Manuela explica a Arnaldo que ao contrário do que ele pensa ela não faz aquilo com todos os homens e que não queria ir para o quarto dele onde poderia ser descoberta. Arnaldo encarrega-se de arranjar um quarto onde se possam encontrar e para isso encontra-se com o seu amigo de outros tempos, Sequeira, que costumava ser muito devasso.
        Sequeira estava muito diferente em relação à última vez que se tinha encontrado, surpreendo Arnaldo que se deparou com um homem careca e desgastado pelos dois enfartes que tinha sofrido muito recentemente. Ainda surpreendido com as voltas da vida, Arnaldo pede a Sequeira o apartamento que este tinha, especialmente para lá levar as suas conquistas, mas Sequeira não o pôde ajudar porque o tinha vendido agora que não o usava; mas apesar de tudo, pede-lhe para ligar a uma amiga, Irene, que talvez o possa ajudar. A chamada feita a Irene tornou-se num verdadeiro fiasco porque não só ela pedia demasiado dinheiro pelo aluguer do quarto como não o alugaria pelo tempo que Arnaldo precisava.
      Arnaldo teve, então, a ideia de procurar no jornal sobre quartos para alugar, e após visitar cerca de cinco, decide-se por um mais ou menos perto da zona em que vive. Paga à porteira, uma senhora idosa, o aluguer do mês e liga a Manuela, a contar-lhe o sucedido, mas esta diz-lhe para aparecer o café à hora do costume que está na hora de ele e o marido, Daniel, se conhecerem.
       Arnaldo, confuso com o estranho pedido, acaba por decidir ir ao café e enquanto espera actualiza-se sobre a vida dos moradores. Daniel e Manuela entram alterando a atmosfera do café, Arnaldo é apresentado a Daniel e ambos desajeitados conversam sobre temas triviais de forma a ultrapassarem o mal-estar, passado algum tempo, Daniel convida Arnaldo a ir tomar uma bebida a sua casa ao que este aceita.
      Lá beberam um uísque de óptima qualidade sem que Arnaldo deixasse de sentir desconforto, no fim de beberem o segundo copo, Daniel afastou-se para tratar de assuntos importantes e Manuela chegou-se a Arnaldo e beijou-o. Arnaldo receoso de que fossem apanhados pelo esposo de Manuela afasta-se e ameaça ir-se embora; Daniel reaparece, então, explicando a Arnaldo que tinha sido escolhido pelo casal para ser amante de Manuela, já que, no passado, Daniel tinha-lhe sido imensamente infiel e lhe queria proporcionar essa experiência mas com a sua total e completa aceitação, desde que se encontrassem em casa do casal, para ninguém suspeitar do caso. Arnaldo, muito surpreso com a proposta inesperada, pediu-lhe tempo para pensar e foi-se embora.
      Na tarde seguinte, Arnaldo tocou à campainha da casa do casal e Daniel abriu-lhe a porta, apesar do explicador preferir que este se tivesse ausentado, mas, como no dia anterior, deixou-os sozinhos e livres para fazerem aquilo que bem entendessem. Manuela admitiu a Arnaldo que apesar de todas as traições do marido, também o tinha traído três vezes sem o seu conhecimento e depois desta conversa, quando ambos estavam ocupados o marido apareceu, criando um momento muito embaraçoso e levando a que Arnaldo se despedisse sem pensar em voltar, porque não queria fazer parte das ‘’esquisitices’’ do casal.
      Três dias passados, Arnaldo regressou a cada do casal com uma proposta a fazer a Manuela e, de novo, a porta foi aberta por Daniel, desta vez de saída. Arnaldo tentou convencer Manuela a ele tinha um quarto alugado do qual poderiam fazer uso, em vez de se terem de submeter a situações embaraçosas na casa dela, ao passo que, ela afirmou que tinha feito um acordo com o marido que tinha de cumprir, levando a que Arnaldo fosse ter com Daniel ao seu escritório para negociarem a questão.
      No escritório Daniel ficou surpreendido com a visita e não tentou disfarçar, levando a que Arnaldo fosse directo ao assunto: ele não gostava de ter de se encontrar com Manuela na casa do casal; Daniel tentando ajudar sugeriu que ligasse a Manuela de forma a resolverem a questão. Manuela e Arnaldo combinaram encontrar-se perto do quarto alugado e Daniel quando toma conhecimento da decisão, discorda, mas Arnaldo não lhe dá nenhuma outra opção, porque ele é o único que mantém a ideia absurda de se encontrarem em casa do casal, mas não lhe fornece a morada do local onde Manuela se encontrará com ele.
      A dona da casa abriu-lhes a porta, não lhes fazendo nenhuma questão. Ficaram no quarto até que começaram a ouvir uma grande algazarra, e depois, a velhota que alugava os quartos bateu à porta, dizendo a Arnaldo que a polícia viria porque morrera alguém. Arnaldo acabou de se vestir e deixou Manuela na cama, para ir ver o que se passava e deparou-se com Daniel morto devido a um tiro na têmpora direita.

O parente da Austrália:
      O médico, que nesse dia voltara de umas férias de quatro semanas, quando no seu consultório, totalmente lotado, chamou pelo primeiro doente, surpreendeu-se ao ver Galdério a levantar-se, já que ele era o vadio da região, normalmente ignorado por toda a gente. Galdério queixava-se de umas dores nas cruzes e depois de tratado não agradeceu nem pagou nada, levando atrás de si todas as pessoas que se encontravam no consultório, à excepção da velhota que ia ao consultório duas vezes por semana trocar um curativo.
      Depois de ver tanta gente a seguir Galdério, o doutor questionou-se se não se teria enganado no diagnóstico, mas as suas dúvidas foram dissipadas ao vê-lo à porta de uma taberna a beber cerveja, novamente rodeado por um numeroso grupo de aldeãos. Ver um homem normalmente ignorado e evitado fez o doutor questionar-se sobre a razão da súbita atenção por parte de toda agente, ainda por cima quando dona Lucinda, uma doceira afamada da região, lhe perguntou pelo estado do seu primo Manuel (verdadeiro nome de Galdério), o doutor com sinceridade afirmou que este sofreu um resfriado fruto dos poucos agasalhos e dos poucos mimos caseiros que recebia. O doutor percebeu que ofendeu a dona Lucinda mas mesmo assim, esta afirmou que as coisas em relação a Galdério iriam mudar, aumentando a curiosidade do doutor.
      No fim de tarde, estava o doutor no consultório e apareceu-lhe o Presidente da Junta, Dionísio, para lhe pedir auxílio na análise de uns documentos, ainda nesse dia, de forma a que se encontrasse uma casa da pertencente à junta, desocupada, que pudesse servir de habitação a Galdério, que na sua opinião não podia continuar na situação que estava. Como era de calcular, o médico enervado com toda aquela atenção a Galdério, recusou dizendo que naquele dia já tinha planos com o tenente Varela e a sua esposa, estando portanto ocupado.
      Quando no fim do jantar, o tenente Varela, reformado da tropa e a sua esposa, dona Agustina chegaram a sua casa, o médico foi directo ao assunto que mais o intrigava e perguntou o que se passava com Galdério, ao passo que dona Agustina lhe explicou que quando ele tinha estado fora da aldeia, chegara um oficial a perguntar quem era o parente de um senhor da Austrália, dando a entender que este morrera e deixara uma enorme fortuna. Apesar de muita gente se ter apresentado dizendo ser parente do misterioso emigrante, ficou provado que Galdério era o parente mais próximo, levando a que todos dessem crédito ilimitado a Galdério, já que sabiam que este liquidaria as dívidas quando recebesse a fortuna. O empreiteiro da ladeia meteu na cabeça que um homem de tamanha riqueza tinha de ter uma casa que fazia jus à sua herança e começou a construir um solar com o dinheiro que todos os primos de Galdério lhe emprestavam.
      E o tempo foi passando sem que ninguém se preocupasse muito com a chegada da carta que determinaria a riqueza de Galdério, porque na mentalidade dos aldeões a Austrália ficava muito longe, mas com o tempo, Galdério, habituado a um estilo de vida mais livre e despreocupado, começou a desejar nunca ter recebido o dinheiro porque tanta atenção também o perturbava. E quando as senhoras da aldeia o pressionavam para casar com as suas filhas, agora que era um óptimo partido, ele recusava, mas não recusava os doces caseiros que ofereciam (obra das prometidas).
      Num dia o carteiro da aldeia, veio com a famosa carta, criando-se um enorme alvoroço porque toda a gente queria saber o montante da fortuna de Galdério. Para ser uma coisa mais oficial chamaram o regedor para declamar o conteúdo da carta na praça da aldeia. Mal pegou no envelope e passou os olhos pelo texto, o regedor ficou muito pálido e, apesar de ser incitado pelos presentes para ler, desmaiou sendo levado para o consultório do médico. Lá, como no passado, o médico ouviu as pessoas a tratarem mal Galdério, chamando-o de tratante e, mais tarde, o médico soube que a carta dizia que o tal parente estava vivo, mas atolado em dívidas, e as autoridades queriam saber se alguém podia pagar o seu repatriamento.
O guarda-chuva que não viajou:
      O amigo do narrador, Francisco Vidal, tinha-lhe dito que S. Paulo era um lugar muito chuvoso, e como o narrador lá ia passar umas férias na companhia da família, decidiu-se ao ir comprar um guarda-chuva na baixa lisboeta. Tinha em mente comprar um guarda-chuva dos pequenos para lhe poder caber na mala, e quando fez tal pedido à senhora que o atendia, numa loja especialista no fabrico dos guarda-chuvas, ela pediu-lhe para descer à cave, onde tinha mais variedade. Na cave, a empregada afirmou-lhe que aqueles guarda-chuvas eram muito práticos e para lhe mostrar o funcionamento de um, pegou num e este não abriu à primeira, e à terceira tentativa o seu rosto começou a azedar; chamou o patrão para resolver o súbito problema, sem deixar de dizer que tal nunca antes tinha acontecido. Até o patrão se mostrou incompetente na abertura do guarda-chuva, e para dissipar as dúvidas do cliente em relação ao teimoso guarda-chuva, mandou chamar o técnico, que iria, na certa, resolver a estranha anomalia. A chegada do técnico não trouxe nada de novo, levando a que o narrador escolhesse um modelo de guarda-chuva antigo, para não abandonar a loja sem nada, mas ao chegar a casa com o guarda-chuva comprido com o cabo esfolado leva a que a esposa o critique e para, na loja, ainda se lembrarem de si, lhe ordene que troque o guarda-chuva no dia seguinte.
      Na viagem até à loja, começou a chover torrencialmente e, o narrador, de forma a não estragar o guarda-chuva ainda mais, não o abre, chegando à loja completamente ensopado. Mas, tal não foi o seu espanto quando a mesma lojista do dia anterior, lhe disse que se o cabo esteva esfolado, tinha sido por algo posterior à compre, porque, segundo ela, a loja só vendia artigos de qualidade, sem defeito.
      Desiludido, o narrador decide-se a viajar a S. Paulo sem guarda-chuva.

Dois ovos ao fim da tarde:
      O homem, trabalhador numa fábrica, mas de baixa devido a doença, arranjou um novo ofício temporário, para qual precisava muito de ovos e tendo se esquecido deles, voltou a casa e perguntou à esposa, Maria, onde os poderia comprar. Ela indicou-lhe a charcutaria Pôr-do-sol e ele lá foi, pedindo ao lojista dois ovos; o lojista estranhou o pedido mas serviu o cliente, nada dizendo.
       No dia seguinte repetiu-se a cena, e o lojista tentou-lhe vender algo mais mas ele recusou e passou-se uma semana assim, até que o lojista começou a magicar na situação, porque o homem levava sempre dois ovos todos os fins de tarde e perguntou-lhe porque não levava de uma vez uma dúzia de ovos em vez de dois e se tinha frigorífico, ao passo, que o senhor afirmou que preferia assim e que tinha um óptimo frigorifico, último modelo. Não se querendo meter na vida do cliente, o lojista nada mais disse, mas aquele homem alterou por completo a sua rotina: saía da charcutaria sempre zangado, porque pensava que o homem estava a gozar com a sua cara, de forma que até a mulher começou a reparar; como a mulher lhe dizia que ou ele ou o cliente estavam doidos, numa manhã, fez-se acompanhar pelo filho e pela mulher para lhes mostrar a esquisitice do cliente e este, como sempre, pediu dois ovos. No dia seguinte, o lojista encheu-se de coragem e questionou-o sobre o destino dos ovos que comprava e o homem respondeu-lhe que os usava para pintar e disse-lhe para quando fechasse a charcutaria ir ver a sua grande obra de arte, que ele pintava ao fundo da alameda.
      O lojista, ainda não totalmente convencido lá foi e qual não foi o seu espanto ao ver que o seu cliente falara verdade, estava a pintar na parede do café, que futuramente abriria, com gema de ovo misturada com tintas, processo muito utilizado antes da invenção das tintas sintéticas assegurou-lhe o cliente que também era pintor. Pediu muitas desculpas por ter duvidado da palavra do cliente e pensou que a esposa nunca acreditaria numa coisa daquelas.

O avião de Caracas:
      O narrador à espera do autocarro que o levaria ao avião de destino a Caracas observa os outros passageiros: há o casal venezuelano, ela uma mulher atraente e ele um marido consciente disso e ciumento que de dez em dez minutos olha com suspeita para todos como que a ver se alguém tem coragem para meter conversa com a esposa.
      Com a chegada da noite, uma das passageiras perguntou repetidamente ao motorista se aquele era mesmo o autocarro que os levaria ao aeroporto, se não estaria atrasado, se não houve mudança de horários, o que aborreceu o motorista e o fez ignorá-la depois de repetir para ela ser paciente porque não havia nenhum problema nem alteração.
      O altifalante chamou, pouco tempo depois, os passageiros ao autocarro, levando ao costumeiro episódio das despedidas, em que as mães abraçaram os filhos, a chorar, e pareciam nunca mais os deixar ir o que levou ao motorista dizer que não esperaria mais. O autocarro arrancou, deixando para trás as famílias e as suas recomendações, indo parar ao meio da chuva, que engrossara e fazia um barulho assustador ao bater nos vidros.
      Chegaram, finalmente, ao aeroporto e embarcaram, quase de seguida, no avião e como o autocarro chegara em cima da hora, ao narrador calhou um lugar com vista para uma das asas do aparelho, mas não lhe importou porque quer à frente, quer atrás, a paisagem era exactamente a mesma: a noite. Ao seu lado, sentara-se uma camponesa italiana de Eboli, que estava paralisada pelo medo da queda do avião; quando as hospedeiras começaram a distribuir o jantar, ela nada quis porque tudo lhe parecia demasiado estranho embora cheirasse muito bem. Assistiu maravilhada ao jantar do narrador e esfomeada, pegou no bolo que tinha trazido e aceitou o pão e a água oferecidos pela hospedeira e comeu.
         Quando fizeram a primeira escala – Lisboa e toda a gente saiu do avião para esticar as pernas, ela não sabia se os deveria acompanhar e perguntou, surpreendida, se já estavam em Caracas. O narrador explicou então como pôde que ainda tinham muita viagem pela frente.     
Excertos:
          “Aqui chegados, deixo-me conduzir pelas minhas conjecturas. Vejo os nossos heróis como que avançando numa estrada, o vulto cresce-lhes, é a história a encontrar o seu próprio fio – que pensas disso, Arnaldo? Nas noites mal dormidas, em quem magicavas? Na misteriosa mulher (o meu único trunfo de narrador estará num clima de mistério) de cabeleira incendiada por um halo que lhe vinha de dentro. No misterioso casal. Que gente era aquela? Porque iram todas as tardes ao café – àquele café?
      Em suma: Manucha alvoraçara os dias e as noites do nosso pacato explicador de matemáticas. Trazia-o de faro ao vento. E mais do que uma pessoa, no café do senhor Marcolino, já dera por isso. A dona Doroteia sondava de lado, com aqueles olhos globosos de sapo, e, no modo como se punha a sacudir irritadamente o cigarro mentolado, queria decerto prevenir que, a ela, ninguém faria ninho atrás da orelha. A dona Micas, essa, bastava-se com breves assombros de flato.”






Comentário à obra:
Na minha experiência literária, embora não seja muita, nunca tinha lido um livro de divertimento, no entanto não me arrependo nem um pouco da leitura desta obra. Fernando Namora é um excelente escritor, pelo que, num futuro próximo, gostaria de ler mais obras dele; escreve sobre coisas que vemos no nosso dia-a-dia sem as tornar forçosas e aborrecidas, conferindo-lhes um diferente brilho.
      Relativamente a esta obra, o único ponto que tenho a apontar, depois da minha leitura da obra, é que, quando o autor consegue captar a nossa total atenção, a história termina, deixando-nos a pensar ‘’Mas e agora, o que é que lhe vai acontecer?! ’’, experimentei essa sensação com maior amplitude, quando li o primeira história da obra (Era um desconhecido) e fiquei sem saber quem tinha morto Daniel e se Manuela e Arnaldo ficariam juntos.
      No fundo, ganhei muito com a leitura desta obra, principalmente alarguei os meus conhecimentos da língua Portuguesa.

Nome aluno/a: Luís Augusto Barreiro Lima nº21  
Data: Terça-feira, 29 de Novembro de 2011