Período de
leitura: 17 de Outubro até 25 de Novembro de 2011
Nome do
escritor(a): Fernando Namora
Título
da obra: “A Resposta a Matilde”
Editor:
Francisco
Lyon de Castro
Local e data
de edição: 2726 MEM
MARTINS CODEX, PORTUGAL
Informações
sobre o escritor/a: Fernando Gonçalves Namora nasceu em
Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, a 15/04/1919 e falecido a 31 de
Janeiro de 1989 com 70 anos. Os pais eram descendentes de camponeses do
concelho de Ansião, no distrito de Leiria. Depois de concluída a instrução
primária, iniciou os estudos secundários no Colégio Camões, em Coimbra, tendo
em seguida transitado para o Liceu Camões, em Lisboa, onde foi colega de Jorge
de Sena. Fernando Namora era licenciado em Medicina pela Universidade de
Coimbra. De novo em Coimbra, no Liceu José Falcão, dirige o jornal académico Alvorada e escreve a sua
primeira obra, uma colectânea de novelas, “Almas sem Rumo” (1935), nunca
publicada. Em 1937 chega a anunciar a publicação da novela “Pecado Venial”, o que também
nunca veio a acontecer. Em 1938, um romance com o nome de “As
Sete Partidas do Mundo” foi galardoado com o prémio Almeida Garret. Também
recebeu o prémio José Lins do Rego, pelo seu romance “Domingo à tarde” e o
prémio Ricardo Malheiros.
Bibliografia
do escritor/a:
Ø “Relevos” – poesia (1937)
Ø “As Sete Partidas do Mundo” –
romance (1938)
Ø “Mar de Sargaços” – poesia (1939)
Ø “Terra” – poesia (1941)
Ø “Fogo na Noite Escura” – romance (1943)
Ø “Casa da Malta” – novela (1945)
Ø “Minas de San Francisco” – romance (1946)
Ø “Um Medicamento Nacional: o anti-infeccioso
I.B.P.” (1946)
Ø “Retalhos da Vida de um Médico”, 1ª série – narrativas (1949)
Ø “A Noite e a Madrugada” – romance (1950)
Ø “Deuses e Demónios da Medicina” – biografias romanceadas (1952)
Ø “O Trigo e o Joio” – romance (1954)
Ø “O Homem Disfarçado” – romance (1957)
Ø “As Frias Madrugadas” – poesia (1959)
Ø “Cidade Solitária” – narrativa (1959)
Ø “Domingo à Tarde” – romance (1961)
Ø “Esboço Histórico do Neo-realismo” (1961)
Ø “A Piedosa Oferenda” (1962)
Ø “Retalhos da Vida de um Médico”, 2ª série – narrativas (1963)
Ø “Aquilino Ribeiro” – prefácio (1963)
Ø “Diálogo em Setembro” – crónica romanceada (1966)
Ø “Um Sino na Montanha” – cadernos de um escritor (1968)
Ø “Marketing” – poesia (1969)
Ø “Os Adoradores do Sol” – cadernos de um escritor (1971)
Ø “Os Clandestinos” – romance (1972)
Ø “Estamos no Vento” – narrativa
literário-sociológica (1974)
Ø “A Nave de Pedra” – cadernos de um
escritor (1975)
Ø “Literatura, Comunicação, Sociedade” (1975)
Ø “Cavalgada Cinzenta” – narrativa (1977)
Ø “Francisco Gentil: 1878-1964” – texto introdutório (1978)
Ø “Professor Elísio de Moura” (1978)
Ø “Encontros” – entrevistas (1979)
Ø Itinerário de Tolstoi: por ele próprio” (1979)
Ø Prefácio a "A Porta dos Limites" de Urbano Tavares Rodrigues (1979)
Ø “Resposta a Matilde” – divertimento (1980)
Ø Prefácio a "Máscaras de Silêncio" de Maria Vitorino (1980)
Ø “O Rio Triste” – romance (1982)
Ø “Augusto de Castro ou o Jardim da Vida e da
Escrita” (1983)
Ø “Nome para uma Casa” – poesia (1984)
Ø “O Espinho” – em "Afecto às Letras"
(1984)
Ø “Sentados na Relva” – cadernos de um
escritor (1986)
Ø “URSS, Mal Amada, Bem Amada” – crónica (1986)
Ø “Autobiografia” (1987)
Ø “Jornal sem Data” – cadernos de um
escritor (1988)
Ø “Tinha Chovido na Véspera”
Resumo da obra:
Era um desconhecido:
Arnaldo Dias Costa era um
típico explicador de Matemática (segundo o narrador, que o compara ao
explicador que teve na sua juventude), com o hábito de passar o intervalo de
quarenta e cinco minutos entre as explicações no Café Estrela. Depois de o
frequentar durante duas semanas, Arnaldo já conhecia os frequentadores
assíduos: dona Doroteia, amante de chá servido num bule; dona Micas, parceira
de Doroteia no dizia respeito a falar sobre a vida alheia; senhor Teodoro, que
passou por sete ofícios e intervêm sempre como moderador nas conversas mais
exaltadas; senhor Aristides, traz sempre o seu cão quando vem ao café do senhor
Marcolino (Café Estrela) tomar um aperitivo depois de uma ida às compras. Mas
quem vem alterar por completo a vida recatada e repetitiva do explicador é uma
senhora casada chamada Zeferina (embora prefira ser chamada por Manuela ou
Manucha - diminutivo lhe atribuído pelo marido Daniel).
Numa tarde como as outras, Arnaldo vai
ao café fazer a sua pausa ao café e depara-se com um casal, por ele
desconhecido, sentado numa mesa. Reparou de imediato que a idade do casal
rondava os quarenta anos e que ele estava a ler o jornal, ao mesmo tempo que
ela, uma mulher muito atraente, fumava calmamente o seu cigarro. Sempre que
Arnaldo, frequentador assíduo, ia ao café via o estranho casal.
Quando numa outra tarde o café estava
lotado à excepção da mesa adjacente da do casal, Arnaldo sentou-se e num gesto
de amabilidade apanhou o saco que a senhora tinha deixado cair do chão. Ao
fazê-lo, ela tentou ajudá-lo e ao mesmo tempo espalhou a pasta de documentos
que ele tinha trazido no chão criando uma grande barafunda. A partir desse dia
criou-se um sentimento de familiaridade retraído entre eles.
Após ter saído do café numa outra tarde,
Manuela (o nome da senhora, que Arnaldo descobriu depois de ouvir uma conversa
do casal) aborda Arnaldo pedindo-lhe que telefone para sua casa, de forma a puderem
marcar um encontro.
No dia seguinte, Arnaldo, receoso que o
marido de Manuela atendesse, liga e alegra-se que tenha sido ela a atender a
sua chamada e marcam um encontro para essa tarde no Rossio. Lá conversam e
Manuela explica a Arnaldo que ao contrário do que ele pensa ela não faz aquilo
com todos os homens e que não queria ir para o quarto dele onde poderia ser
descoberta. Arnaldo encarrega-se de arranjar um quarto onde se possam encontrar
e para isso encontra-se com o seu amigo de outros tempos, Sequeira, que
costumava ser muito devasso.
Sequeira estava muito diferente em
relação à última vez que se tinha encontrado, surpreendo Arnaldo que se deparou
com um homem careca e desgastado pelos dois enfartes que tinha sofrido muito
recentemente. Ainda surpreendido com as voltas da vida, Arnaldo pede a Sequeira
o apartamento que este tinha, especialmente para lá levar as suas conquistas,
mas Sequeira não o pôde ajudar porque o tinha vendido agora que não o usava;
mas apesar de tudo, pede-lhe para ligar a uma amiga, Irene, que talvez o possa
ajudar. A chamada feita a Irene tornou-se num verdadeiro fiasco porque não só
ela pedia demasiado dinheiro pelo aluguer do quarto como não o alugaria pelo
tempo que Arnaldo precisava.
Arnaldo teve, então, a ideia de procurar
no jornal sobre quartos para alugar, e após visitar cerca de cinco, decide-se
por um mais ou menos perto da zona em que vive. Paga à porteira, uma senhora
idosa, o aluguer do mês e liga a Manuela, a contar-lhe o sucedido, mas esta diz-lhe
para aparecer o café à hora do costume que está na hora de ele e o marido,
Daniel, se conhecerem.
Arnaldo, confuso com o estranho pedido,
acaba por decidir ir ao café e enquanto espera actualiza-se sobre a vida dos
moradores. Daniel e Manuela entram alterando a atmosfera do café, Arnaldo é
apresentado a Daniel e ambos desajeitados conversam sobre temas triviais de
forma a ultrapassarem o mal-estar, passado algum tempo, Daniel convida Arnaldo
a ir tomar uma bebida a sua casa ao que este aceita.
Lá beberam um uísque de óptima qualidade
sem que Arnaldo deixasse de sentir desconforto, no fim de beberem o segundo
copo, Daniel afastou-se para tratar de assuntos importantes e Manuela chegou-se
a Arnaldo e beijou-o. Arnaldo receoso de que fossem apanhados pelo esposo de
Manuela afasta-se e ameaça ir-se embora; Daniel reaparece, então, explicando a
Arnaldo que tinha sido escolhido pelo casal para ser amante de Manuela, já que,
no passado, Daniel tinha-lhe sido imensamente infiel e lhe queria proporcionar
essa experiência mas com a sua total e completa aceitação, desde que se
encontrassem em casa do casal, para ninguém suspeitar do caso. Arnaldo, muito
surpreso com a proposta inesperada, pediu-lhe tempo para pensar e foi-se
embora.
Na tarde seguinte, Arnaldo tocou à
campainha da casa do casal e Daniel abriu-lhe a porta, apesar do explicador
preferir que este se tivesse ausentado, mas, como no dia anterior, deixou-os
sozinhos e livres para fazerem aquilo que bem entendessem. Manuela admitiu a Arnaldo
que apesar de todas as traições do marido, também o tinha traído três vezes sem
o seu conhecimento e depois desta conversa, quando ambos estavam ocupados o
marido apareceu, criando um momento muito embaraçoso e levando a que Arnaldo se
despedisse sem pensar em voltar, porque não queria fazer parte das
‘’esquisitices’’ do casal.
Três dias passados, Arnaldo regressou a
cada do casal com uma proposta a fazer a Manuela e, de novo, a porta foi aberta
por Daniel, desta vez de saída. Arnaldo tentou convencer Manuela a ele tinha um
quarto alugado do qual poderiam fazer uso, em vez de se terem de submeter a
situações embaraçosas na casa dela, ao passo que, ela afirmou que tinha feito
um acordo com o marido que tinha de cumprir, levando a que Arnaldo fosse ter
com Daniel ao seu escritório para negociarem a questão.
No escritório Daniel ficou surpreendido
com a visita e não tentou disfarçar, levando a que Arnaldo fosse directo ao
assunto: ele não gostava de ter de se encontrar com Manuela na casa do casal;
Daniel tentando ajudar sugeriu que ligasse a Manuela de forma a resolverem a
questão. Manuela e Arnaldo combinaram encontrar-se perto do quarto alugado e
Daniel quando toma conhecimento da decisão, discorda, mas Arnaldo não lhe dá
nenhuma outra opção, porque ele é o único que mantém a ideia absurda de se
encontrarem em casa do casal, mas não lhe fornece a morada do local onde
Manuela se encontrará com ele.
A dona da casa abriu-lhes a porta, não
lhes fazendo nenhuma questão. Ficaram no quarto até que começaram a ouvir uma
grande algazarra, e depois, a velhota que alugava os quartos bateu à porta,
dizendo a Arnaldo que a polícia viria porque morrera alguém. Arnaldo acabou de
se vestir e deixou Manuela na cama, para ir ver o que se passava e deparou-se
com Daniel morto devido a um tiro na têmpora direita.
O parente da Austrália:
O médico, que nesse dia
voltara de umas férias de quatro semanas, quando no seu consultório, totalmente
lotado, chamou pelo primeiro doente, surpreendeu-se ao ver Galdério a
levantar-se, já que ele era o vadio da região, normalmente ignorado por toda
a gente. Galdério queixava-se de umas dores
nas cruzes
e depois de tratado não agradeceu nem pagou nada, levando atrás de si todas as
pessoas que se encontravam no consultório, à excepção da velhota que ia
ao consultório duas vezes por semana trocar um curativo.
Depois de ver tanta gente a seguir
Galdério, o doutor questionou-se se não se teria enganado no diagnóstico, mas
as suas dúvidas foram dissipadas ao vê-lo à porta de uma taberna a beber
cerveja, novamente rodeado por um numeroso grupo de aldeãos. Ver um homem
normalmente ignorado e evitado fez o doutor questionar-se sobre a razão da
súbita atenção por parte de toda agente, ainda por cima quando dona Lucinda, uma
doceira afamada da região, lhe perguntou pelo estado do seu primo Manuel
(verdadeiro nome de Galdério), o doutor com sinceridade afirmou que este sofreu
um resfriado fruto dos poucos agasalhos e dos poucos mimos caseiros que
recebia. O doutor percebeu que ofendeu a dona Lucinda mas mesmo assim, esta
afirmou que as coisas em relação a Galdério iriam mudar, aumentando a
curiosidade do doutor.
No fim de tarde, estava o doutor no
consultório e apareceu-lhe o Presidente da Junta, Dionísio, para lhe pedir
auxílio na análise de uns documentos, ainda nesse dia, de forma a que se
encontrasse uma casa da pertencente à junta, desocupada, que pudesse servir de
habitação a Galdério, que na sua opinião não podia continuar na situação que
estava. Como era de calcular, o médico enervado com toda aquela atenção a
Galdério, recusou dizendo que naquele dia já tinha planos com o tenente Varela
e a sua esposa, estando portanto ocupado.
Quando no fim do jantar, o tenente
Varela, reformado da tropa e a sua esposa, dona Agustina chegaram a sua casa, o
médico foi directo ao assunto que mais o intrigava e perguntou o que se passava
com Galdério, ao passo que dona Agustina lhe explicou que quando ele tinha
estado fora da aldeia, chegara um oficial a perguntar quem era o parente de um
senhor da Austrália, dando a entender que este morrera e deixara uma enorme
fortuna. Apesar de muita gente se ter apresentado dizendo ser parente do
misterioso emigrante, ficou provado que Galdério era o parente mais próximo,
levando a que todos dessem crédito ilimitado a Galdério, já que sabiam que este
liquidaria as dívidas quando recebesse a fortuna. O empreiteiro da ladeia meteu
na cabeça que um homem de tamanha riqueza tinha de ter uma casa que fazia jus à
sua herança e começou a construir um solar com o dinheiro que todos os primos
de Galdério lhe emprestavam.
E o tempo foi passando sem que ninguém se
preocupasse muito com a chegada da carta que determinaria a riqueza de
Galdério, porque na mentalidade dos aldeões a Austrália ficava muito longe, mas
com o tempo, Galdério, habituado a um estilo de vida mais livre e
despreocupado, começou a desejar nunca ter recebido o dinheiro porque tanta
atenção também o perturbava. E quando as senhoras da aldeia o pressionavam para
casar com as suas filhas, agora que era um óptimo partido, ele recusava, mas
não recusava os doces caseiros que ofereciam (obra das prometidas).
Num dia o carteiro da aldeia, veio com a
famosa carta, criando-se um enorme alvoroço porque toda a gente queria saber o
montante da fortuna de Galdério. Para ser uma coisa mais oficial chamaram o
regedor para declamar o conteúdo da carta na praça da aldeia. Mal pegou no
envelope e passou os olhos pelo texto, o regedor ficou muito pálido e, apesar
de ser incitado pelos presentes para ler, desmaiou sendo levado para o
consultório do médico. Lá, como no passado, o médico ouviu as pessoas a
tratarem mal Galdério, chamando-o de tratante e, mais tarde, o médico soube que
a carta dizia que o tal parente estava vivo, mas atolado em dívidas, e as
autoridades queriam saber se alguém podia pagar o seu repatriamento.
O guarda-chuva que não viajou:
O
amigo do narrador, Francisco Vidal, tinha-lhe dito que S. Paulo era um lugar
muito chuvoso, e como o
narrador lá ia passar umas férias na companhia da família, decidiu-se ao ir
comprar um guarda-chuva na baixa lisboeta. Tinha em mente comprar um
guarda-chuva dos pequenos para lhe poder caber na mala, e quando fez tal pedido
à senhora que o atendia, numa loja especialista no fabrico dos guarda-chuvas,
ela pediu-lhe para descer à cave, onde tinha mais variedade. Na cave, a
empregada afirmou-lhe que aqueles guarda-chuvas eram muito práticos e para lhe
mostrar o funcionamento de um, pegou num e este não abriu à primeira, e à
terceira tentativa o seu rosto começou a azedar; chamou o patrão para resolver
o súbito problema, sem deixar de dizer que tal nunca antes tinha acontecido.
Até o patrão se mostrou incompetente na abertura do guarda-chuva, e para
dissipar as dúvidas do cliente em relação ao teimoso guarda-chuva, mandou
chamar o técnico, que iria, na certa, resolver a estranha anomalia. A chegada
do técnico não trouxe nada de novo, levando a que o narrador escolhesse um
modelo de guarda-chuva antigo, para não abandonar a loja sem nada, mas ao
chegar a casa com o guarda-chuva comprido com o cabo esfolado leva a que a
esposa o critique e para, na loja, ainda se lembrarem de si, lhe ordene que
troque o guarda-chuva no dia seguinte.
Na viagem até à loja, começou a chover torrencialmente e, o narrador, de
forma a não estragar o guarda-chuva ainda mais, não o abre, chegando à loja
completamente ensopado. Mas, tal não foi o seu espanto quando a mesma lojista
do dia anterior, lhe disse que se o cabo esteva esfolado, tinha sido por algo
posterior à compre, porque, segundo ela, a loja só vendia artigos de qualidade,
sem defeito.
Desiludido, o narrador decide-se a viajar
a S. Paulo sem guarda-chuva.
Dois ovos ao fim da tarde:
O
homem, trabalhador numa fábrica, mas de baixa devido a doença, arranjou um novo
ofício temporário, para qual precisava muito de ovos e tendo se esquecido
deles, voltou a casa e perguntou à esposa, Maria, onde os poderia comprar. Ela
indicou-lhe a charcutaria Pôr-do-sol e ele lá foi, pedindo ao lojista dois ovos;
o lojista estranhou o pedido mas serviu o cliente, nada dizendo.
No dia seguinte repetiu-se a cena, e o lojista tentou-lhe vender algo
mais mas ele recusou e passou-se uma semana assim, até que o lojista começou a
magicar na situação, porque o homem levava sempre dois ovos todos os fins de
tarde e perguntou-lhe porque não levava de uma vez uma dúzia de ovos em vez de
dois e se tinha frigorífico, ao passo, que o senhor afirmou que preferia assim
e que tinha um óptimo frigorifico, último modelo. Não se querendo meter na vida
do cliente, o lojista nada mais disse, mas aquele homem alterou por completo a
sua rotina: saía da charcutaria sempre zangado, porque pensava que o homem
estava a gozar com a sua cara, de forma que até a mulher começou a reparar;
como a mulher lhe dizia que ou ele ou o cliente estavam doidos, numa manhã,
fez-se acompanhar pelo filho e pela mulher para lhes mostrar a esquisitice do
cliente e este, como sempre, pediu dois ovos. No dia seguinte, o lojista
encheu-se de coragem e questionou-o sobre o destino dos ovos que comprava e o
homem respondeu-lhe que os usava para pintar e disse-lhe para quando fechasse a
charcutaria ir ver a sua grande obra de arte, que ele pintava ao fundo da
alameda.
O lojista, ainda não totalmente convencido
lá foi e qual não foi o seu espanto ao ver que o seu cliente falara verdade,
estava a pintar na parede do café, que futuramente abriria, com gema de ovo
misturada com tintas, processo muito utilizado antes da invenção das tintas
sintéticas assegurou-lhe o cliente que também era pintor. Pediu muitas
desculpas por ter duvidado da palavra do cliente e pensou que a esposa nunca
acreditaria numa coisa daquelas.
O avião de Caracas:
O
narrador à espera do autocarro que o levaria ao avião de destino a Caracas
observa os outros passageiros: há o casal venezuelano, ela uma mulher atraente
e ele um marido consciente disso e ciumento que de dez em dez minutos olha com
suspeita para todos como que a ver se alguém tem coragem para meter conversa
com a esposa.
Com a chegada da noite, uma das passageiras perguntou repetidamente ao
motorista se aquele era mesmo o autocarro que os levaria ao aeroporto, se não
estaria atrasado, se não houve mudança de horários, o que aborreceu o motorista
e o fez ignorá-la depois de repetir para ela ser paciente porque não havia
nenhum problema nem alteração.
O
altifalante chamou, pouco tempo depois, os passageiros ao autocarro, levando ao
costumeiro episódio das despedidas, em que as mães abraçaram os filhos, a
chorar, e pareciam nunca mais os deixar ir o que levou ao motorista dizer que
não esperaria mais. O autocarro arrancou, deixando para trás as famílias e as
suas recomendações, indo parar ao meio da chuva, que engrossara e fazia um
barulho assustador ao bater nos vidros.
Chegaram, finalmente, ao aeroporto e embarcaram, quase de seguida, no
avião e como o autocarro chegara em cima da hora, ao narrador calhou um lugar
com vista para uma das asas do aparelho, mas não lhe importou porque quer à
frente, quer atrás, a paisagem era exactamente a mesma: a noite. Ao seu lado,
sentara-se uma camponesa italiana de Eboli, que estava paralisada pelo medo da
queda do avião; quando as hospedeiras começaram a distribuir o jantar, ela nada
quis porque tudo lhe parecia demasiado estranho embora cheirasse muito bem.
Assistiu maravilhada ao jantar do narrador e esfomeada, pegou no bolo que tinha
trazido e aceitou o pão e a água oferecidos pela hospedeira e comeu.
Quando fizeram a primeira escala – Lisboa e toda a gente saiu do avião
para esticar as pernas, ela não sabia se os deveria acompanhar e perguntou,
surpreendida, se já estavam em Caracas. O narrador explicou então como pôde que
ainda tinham muita viagem pela frente.
Excertos:
“Aqui
chegados, deixo-me conduzir pelas minhas conjecturas. Vejo os nossos heróis
como que avançando numa estrada, o vulto cresce-lhes, é a história a encontrar
o seu próprio fio – que pensas disso, Arnaldo? Nas noites mal dormidas, em quem
magicavas? Na misteriosa mulher (o meu único trunfo de narrador estará num
clima de mistério) de cabeleira incendiada por um halo que lhe vinha de dentro.
No misterioso casal. Que gente era aquela? Porque iram todas as tardes ao café
– àquele café?
Em suma: Manucha alvoraçara os dias e as noites do nosso pacato
explicador de matemáticas. Trazia-o de faro ao vento. E mais do que uma pessoa,
no café do senhor Marcolino, já dera por isso. A dona Doroteia sondava de lado,
com aqueles olhos globosos de sapo, e, no modo
como se punha a sacudir irritadamente o cigarro mentolado, queria decerto
prevenir que, a ela, ninguém faria ninho atrás da orelha. A dona Micas, essa,
bastava-se com breves assombros de flato.”
Comentário à obra:
Na minha experiência literária, embora não
seja muita, nunca tinha lido um livro de divertimento, no entanto não me
arrependo nem um pouco da leitura desta obra. Fernando Namora é um excelente
escritor, pelo que, num futuro próximo, gostaria de ler mais obras dele;
escreve sobre coisas que vemos no nosso dia-a-dia sem as tornar forçosas e
aborrecidas, conferindo-lhes um diferente brilho.
Relativamente a esta obra, o único ponto que tenho a apontar, depois da
minha leitura da obra, é que, quando o autor consegue captar a nossa total atenção,
a história termina, deixando-nos a pensar ‘’Mas e agora, o que é que lhe vai
acontecer?! ’’, experimentei essa sensação com maior amplitude, quando li o
primeira história da obra (Era um desconhecido) e fiquei sem saber quem tinha
morto Daniel e se Manuela e Arnaldo ficariam juntos.
No fundo, ganhei muito com a leitura
desta obra, principalmente alarguei os meus conhecimentos da língua Portuguesa.
Nome aluno/a: Luís
Augusto Barreiro Lima nº21
Data: Terça-feira, 29 de Novembro
de 2011
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